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  • Valéria Chociai

Você já ouviu o chamado? Parte III

Atualizado: 23 de Jan de 2019

Pelas nossas queridas Valéria Chociai & Kelly Freitas


"Acho que todas as pontes têm um significado

muito especial na nossa vida.

Acho que um livro é uma ponte.

Qualquer tipo de florescimento

é uma ponte

que permite que diferentes culturas se conectem.”

Paulo Coelho no documentário sobre o

Caminho de Santiago

No último texto a Kelly havia chegado ao Alto do Perdão, lembram?


Nesse novo trecho do livro 40 anos em 40 dias ela vai percorrer um longo caminho até Atapuerca.


Vamos junto?


Iniciamos a descida.

Super difícil, pois é bem íngreme e com pedras soltas.

Toda atenção é pouco.

Um escorregão e já era!

Em um determinado local, vários montinhos de pedra.

Peregrinos costumam fazer esses morrinhos como sinalização para o caminho.

Claro que deixamos o nosso.

E ao descer um pouco mais encontramos vários salmos presos nas pedras.

Escolhi um para mim e foi o Salmo 3:8:

Yo me acuesto tranquilo y me duermo em seguida, pois Tu, Señor, me haces vivir confiado”.

Eu me tranquilizo e durmo em seguida, pois Tu, Senhor, me fazes viver confiante!

O dia estava perfeito para fotos e reflexões, o que fez com que o dia fosse de muita caminhada e chegada tardia a Puente La Reina.


Andamos mais e mais, a paisagem lindíssima e os povos também, mas o cansaço já tomava conta de nós quando alcançamos Puente La Reina e, enfim, encontramos a Natália - esposa do Jose, o taxista-amigo - dona do Albergue Estrela Guia.

Um lugar muito aconchegante, com uma energia maravilhosa e com o sorriso da Natália.

Ela nos esperou com bolo de iogurte e um vinho.


Pediu que cada um tirasse uma palavra de um saquinho e para mim saiu “Centramiento”.

Realmente preciso achar meu centro, meu eixo!

Estávamos bem cansados, então ela carimbou nossas credenciais e pagamos 12€ pela estadia com café da manhã.

Saímos para ver a ponte.


Imagem de ojodigital.com.

Aproveitamos e compramos coisas para o lanche do dia seguinte: pão, frios, suco, cookies e chocolates, ficando 3,40€ para cada pessoa.

A turma queria jantar o Menu do Peregrino, mas eu estava bem cansada.

Tomei uma sopa com eles, que custou 4€, e voltei para o albergue.

Preparei e separei os lanches.

Quando a turma voltou dividimos as despesas e os lanches.

Já passava das 22h40 quando Jose chegou e nos levou à Ermita Eunate.


Imagem do El Diario.

Uma igreja em formato octogonal da época dos Cavaleiros Templários.

Estava toda apagada, mas o Jose a iluminou com os faróis de seu carro e ela se apresentou linda para todos nós.

Foi nesse clima de total êxtase que nos despedimos do casal super alto astral.

Pessoas que vão morar em meu coração para sempre.

No dia seguinte arrumamos a mochila e tomamos um delicioso café da manhã no albergue.

Natália pediu que pela manhã cada um tirasse uma carta do oráculo diário e a minha carta foi “Liberação”.


E foi assim que procurei iniciar a caminhada de Puente la Reina a Estella.


Esse mapa mundi é feito com pneus velhos.

Fica nesse trecho entre Puente La Reina e Estella.

O dia começou difícil, dor no meu dedinho do pé.

Não conseguia andar direito.

Parei muitas vezes e a reflexão sobre o que o caminho estava querendo me mostrar com isso era: isso que dói é apenas uma pequenina parte do todo que é seu corpo.

Não deixe que algo tão pequeno te deixe presa, que machuque tanto.

E crente nesse pensamento, refletindo sobre a situação, percebi que aquilo não podia ser mais forte que eu.

Parei, tirei as botas, analisei e cheguei à conclusão que se eu não fizesse nada eu perderia a unha e isso seria pior.

Parei em uma farmácia em um povoado pequeno e comprei uns tubinhos de silicone que ajudam muito com os dedos.

Aí pude caminhar mais e mais.

Logo após o almoço precisávamos descansar.

Encontramos uma praça e ali mesmo fizemos nossa siesta.


Dormimos uns 30 minutos e foi o suficiente para conseguir finalizar o trajeto até Estella.

Quase chegando a Estella, uma nova recompensa do Caminho.

Uma Ermita de 1064, a Ermita de São Miguel Arcanjo, linda na sua construção e muito simples por dentro, porém com uma energia impressionante.

Ao chegarmos a Estella vimos a indicação de que faltavam 695km para alcançarmos Santiago de Compostela.

Comemoração por algumas etapas vencidas!

Em Estella procuramos o albergue municipal e nos instalamos por 6€.

Carimbamos as credenciais e ao entrarmos avistamos alguns brasileiros fazendo uma Cena Compartida – Jantar Compartilhado.

Rogério e Andrea optaram por fazer um lanche e eu e Gemba entramos na sopa da turma.

André, Marcelo e Marco, brasileiros, um senhor americano chamado Rick e um francês que não lembro o nome.

Eles prepararam a sopa de frango e legumes, salame, pão e vinho.


Nessa noite gastei somente com um pão e um vinho e o total dos gastos foram 3,50€.

Tomamos banho e logo nos deitamos, o dia não foi fácil.

À noite, muito frio.

Acordei muitas vezes com dores nas pernas, mas ao amanhecer estava renovada.

Tomamos café da manhã no albergue com o que tínhamos nas mochilas e seguimos a caminhada não muito pesada.


Logo ao sair da cidade de Estella lembrei-me de meu sobrinho Nicolas ao passar pela Calle San Nicolas na saída da cidade.

Saudade de todos.

Foi um dia de pensar em coisas que planejamos e que muitas vezes temos que alterar para que dê tudo certo.

Planejamos sair cedinho e nos enrolamos mais uma vez.

No primeiro povoado compramos coisas para o lanche e gastamos 3,35€.

Nessa parada perdi meu primeiro óculos de sol.

Fiquei triste, pois foi minha irmã que me deu e tinha muito significado para mim, mas talvez Deus estivesse enviando um sinal para eu enxergar algo que não estava vendo.

Ou alguém que precisava mais do que eu achou.

Não sei ainda o que era, só sei que foi assim!

Andamos um pouquinho mais e chegamos à Bodega de Irache, onde há uma fonte de água e outra de vinho!


Quando chegamos o vinho já estava no finzinho, mas conseguimos um pouco para brindar e tirar algumas fotos.

Nesse ponto é interessante chegar cedo para ver a fonte, pois muitas pessoas enchem as garrafas, o que não é permitido.

Continuamos mais um pouco e uma bifurcação nos mostrava à direita o caminho que havíamos planejado e à esquerda um caminho com menos dois km.


Pensamos um pouco, pesquisamos na internet e enfim escolhemos o caminho da esquerda.

Passamos por um bosque maravilhoso, com sombra e um ar bem fresco.

Seguimos por muitas horas só nos quatro, mas foi muito bom!


Mais à frente o caminho se encontrou com a outra rota.

Planejamos um caminho, mas na hora mudamos de rota.

Lição do dia: estar sempre disponível e preparado para mudanças.

Ter jogo de cintura sempre ajuda.

Deixe nas mãos de Deus que ele mostra o caminho a seguir.

Em Luquini fiz minha primeira drenagem de bolha.

Um procedimento que nunca tinha visto, mas com a ajuda dos companheiros fiz o curativo e melhorei bem.

(E você pode aprender o procedimento no final desse texto aqui!)

Chegamos em Los Arcos muito cedo - finalmente - e nos instalamos no Albergue Casa Áustria - 12,50€ a estadia com café da manhã.

Deixamos a roupa para lavar e secar e custou 10,00€, que dividimos por nós quatro.

Fomos muito bem recebidos e instalados e após o senhor mostrar o albergue, a turma descansou um pouco e eu fui à farmácia comprar outro óculos de sol.

Gastei 48€ com os óculos, Compeed e gel para dor.

Passei no mercado para comprar algo para o jantar, que foi macarrão com molho de atum, vinho, suco de laranja e pudim de leite, ficando 4,50€ para cada um.

No albergue dividimos a cozinha com outro grupo de pessoas de vários países, mas foi muito legal.

Preparei a comida rapidinho, comemos muito e ainda havia sobrado um pratão de macarrão.


Saí pelo albergue perguntando se alguém gostaria de comer.

Foi quando reencontrei Rodrigo, brasileiro, que comeu e ficou feliz da vida.

Fomos para o quarto arrumar a mochila e aguardar a roupa ficar seca.

Quando isso aconteceu já passavam das 23h.

Acordamos bem cedinho e um café da manhã nos esperava dentro do próprio albergue.

Tomamos café e um irlandês, Oshi, um alemão e o brasileiro Rodrigo se juntaram a nós.

O café estava uma delícia, mas deixamos Los Arcos antes das 7h rumo a Logroño, uma vez que o trecho era de 28km.

Como a caminhada era longa, tínhamos que ter uma motivação.


E o caminho nos proporcionou.

Caminhávamos muito, mas podíamos sempre ver, mesmo que ao longe, a próxima cidade.

Enxergar o seu objetivo.

Mais um ensinamento para minha vida.

Às vezes temos planos, mas se eles não forem claros e alcançáveis e, se não soubermos quando, como, onde, e por que faremos, de nada adianta a boa vontade sozinha.

No fim da tarde, cansados, chegamos a Logroño e nos instalamos no Albergue Santiago Apóstolo.

Albergue muito limpo, agradável e com instalações bem adequadas.

Além de um chuveiro MARAVILHOSO.

Gastamos 10€ de albergue e 9,50€ de jantar no local.

Nos apressamos para tomar banho e fomos ao mercado comprar coisas para preparar o lanche do dia seguinte.

Nesse albergue encontramos três brasileiros.

Dois deles estavam caminhando para emagrecer e curtir, dois senhores que logo nos disseram que seria a primeira e última vez que nos veríamos, pois eles andam uma média de 39 a 49km/dia.

A brasileira já estava na terceira vez e não tinha conseguido concluir as outras.

Esta não gostava das pessoas falando toda hora Buen Camino e também reclamou muito dos americanos.

Ou seja, pessoas totalmente fora da sintonia dos demais peregrinos.

São os conhecidos Turigrinos.

No jantar falamos com um alemão e um americano.

Duas pessoas bem legais.

Após o jantar eu e a Déia começamos a fazer os lanches para o dia seguinte.

Os dois que estavam para emagrecer não sabiam que o Gemba estava conosco e estavam inconformados que estávamos fazendo um monte de lanches uma vez que tínhamos acabado de jantar.

Então o Gemba, em sua delicadeza, respondeu que era o nosso lanche de amanhã.

Eles ficaram muito sem graça.

Terminamos e fomos descansar.

Tivemos nessa cidade uma das melhores noites de descanso.

Acordamos bem cedinho, tomamos café e deixamos Logroño às 6h55, pois o dia prometia ser longo com seus 31km.


Nos primeiros quilômetros vimos que seria bom quebrar o dia parando em Ventosa e no dia seguinte continuar rumo a Najera, mas como nem tudo é como queremos os planos mudaram.

Já de início saímos com roupas frescas e o tempo virou.

Muito vento e chuva, e nós cansadíssimos do dia anterior.


Debaixo de um viaduto, rumo à Najera.

Podre de cansaço.

Brenda estava caminhando conosco.

Tentei fazer reserva em Ventosa, mas não consegui.

Ao chegarmos, o único albergue só possuía três camas e éramos em cinco peregrinos.

Como era o único albergue e o hotel era muito caro, tivemos que tomar uma dura decisão.

Deixar a Brenda e seguir de taxi.

Cada um estava com muitas dores e não teríamos condições de seguir caminhando.

O hospitaleiro do Albergue de Ventosa ligou para um taxi que nos levou a Najera.

Isso arrasa qualquer peregrino.

Ninguém quer que isso aconteça, mas era isso ou ninguém poderia andar no dia seguinte.

Além disso, a chuva se aproximava.

Mas não foi fácil para nós.

Principalmente eu e a Déia estávamos muito tristes e choramos muito.

Queríamos só ficar quietinhas.

O trajeto de taxi foi duro e em silêncio.

Chegamos a Najera e decidimos ir direto ao supermercado comprar coisas para o jantar.

Risotto 4 queijos e brigadeiro.

Mal podia escrever para meu grupo e acabei desabafando com todos.

Como um amigo disse, fiz exatamente o que sempre faço.

Quando algo que quero não dá certo eu choro, falo para todo mundo, como uma criança faz.

O Caminho mostrou quem manda em quem.

Mostrou que eu posso planejar o que eu quiser, mas se não for para ser, não será.

Quando cheguei ao albergue municipal, piorei.

Chorei mais ainda, pois me senti mal.

Nesse albergue não tem valor estipulado para pagamento, é por donativo.

Fiquei pior, pois eu poderia estar tirando lugar de algum peregrino que fez o percurso todo a pé (mas no final sobraram camas, ufa).

Para afastar a tristeza, desnecessária, resolvi fazer algo que me traz alegria e me lembra como é estar em casa.

Então, cozinhei.


Compramos as coisas, dividimos, e fiz um belo risotto 4 queijos e brigadeiro.

A comida era para quatro pessoas, mas no final foi uma grande festa e os hospitaleiros e mais 11 pessoas comeram risoto e brigadeiro.

Salvador e Patrícia, hospitaleiros do albergue de Najera, agradeceram muito por termos feito a janta.

Pegaram vinho, juntaram-se a nós, aliás, todos que chegaram comeram um pouquinho.

Salvador disse que este era o verdadeiro espírito peregrino e pediu para tirar fotos e colocou música italiana!


Terminamos a noite felizes e radiantes, esperando o dia seguinte.

Os gastos deste dia resumiram-se a: taxi - 5€ para cada, 5€ de donativo no albergue e o jantar + lanche 7,5€.

No dia seguinte acordamos às 6h15, arrumamos a mochila e fomos para a cozinha do albergue.

Lá os peregrinos da noite anterior nos cumprimentavam com sorrisos largos.

Ganhei um chocolate para beber e uma maçã verde.

Estava atrasada, então a Déia e o Rogério fizeram os lanches para o dia.

Peguei os lanches que eu não iria comer, fiz um prato bem bonito para deixar para os peregrinos e mais uma vez recebi o carinho de Patrícia e Salvador.

Tiramos fotos, nos abraçamos e Buen Camino.


As caves de Najera.


Amo essa foto.

Foram 21 km com uma paisagem linda.

Logo na primeira cidade nos perdemos da Déia e do Rogério e seguimos, Gemba e eu.

Mas nunca estamos sós.

A turma de espanhóis (Olga, Aurélio e Pepe) nos chamou com grande alegria para um café com croissants.

Ficamos uns 30 minutos parados, tomando café e conversando.

Gastei 5,5€.


Seguimos o caminho e encontramos o Erin (o São Francisco) e a Tineka, uma senhora da Nova Zelândia, de 70 anos.

No topo de uma subida íngreme encontramos um rapaz com uma placa que dizia que empregos para jovens eram poucos e que ele estava ali fazendo algo por ele e pelos outros.

Sua banquinha tinha frutas, doces, sucos e bebidas quentes, além de pins e outros artesanatos.

Nada tinha preço.

Era contribuição voluntária.

Pagamos 5€ por dois sucos, duas bananas e um pin.

Agradecemos muito!


Mais adiante outra surpresa do caminho.

Uma senhora sentada na estrada.

Ao invés de fotografar a paisagem, ela tinha tela e tintas, retratando o que estava vendo!




Chegamos cedo a São Domingo de La Calzada, ficamos em um albergue que custou 7€, lavei toda roupa na lavanderia na frente do albergue e arrumei a mochila.

Tomei um bom banho e sequei meu cabelo com secador por 0,50€.

Fui comprar as coisas para o jantar e no caminho de volta encontrei Déia e Rogério.

Tíneca trouxe um vinho e fizemos arroz brasileiro com ovo frito e salada de tomate.



O jantar e café da manhã saíram por 2,25€ para cada um.

Jantamos e nos sentimos em casa... comidinha como no Brasil.

Tineka adorou e pediu a receita do nosso arroz.

Perguntou da minha vida, do meu esposo, e quando falei o que Benato tinha ela disse que era homeopata e receitou umas ervas para ele.

Todos querem ajudar.

Isso que nos move no caminho.

Limpamos tudo o que utilizamos e fomos assistir à missa na Catedral, que mantém um galo e uma galinha.


Imagem do blog do Oswaldo Buzzo.

Nesse link ele conta o motivo da fama dos galos e galinhas por ali.

Cansada, voltei para o albergue e escrevi no meu bloco de notas.

Na manhã do dia seguinte arrumamos as mochilas e descemos para tomar o café.

Encontramos Pepe sentado cabisbaixo.

Ele estava assim, pois seus joelhos estavam estourados e teria que ir ao médico.

Ele tinha o medo que todos os peregrinos têm... ter que parar!

Ficamos com ele dando força.

Aqui um ajuda o outro.

Espírito peregrino é assim.

Descemos para pegar as botas e sair, mas o dia hoje prometia muitas coisas.

Encontramos Olga e Aurélio, o casal que estava com Pepe.

Conversamos um pouco e saímos.

Andrea e Rogério estavam no outro albergue e nos desencontramos novamente.

Seguimos pelas ruas estreitas e cheias de história de São Domingos de La Calzada, até alcançarmos a estrada.

Foi quando em uma descida, levei um tombo.

Ri de mim mesma e tirei uns minutos para refletir.

Quando caímos, quando temos problemas, temos que levantar e seguir adiante.

Rir do que aconteceu e manter a serenidade e alegria.

Mas, como seria bom ter alguém para ajudar...

Foi quando falei para meu amigo: “poxa, se o rapaz que vinha atrás me ajudasse, puxando a mochila, seria muito mais fácil”.

Gemba, muito sábio, disse: “ele iria te ajudar, mas você levantou sozinha, além do quê, ele poderia ter caído por cima de você, se machucar e te machucar”.

Ou seja, nem sempre você terá alguém para te ajudar - reaja!

E muitas vezes alguém quer te ajudar e você não quer ser ajudado - permita!

Seguimos rindo e chegamos à Cruz do Valente.


Lá tiramos as botas, drenei uma super bolha no dedinho do Gemba e percebi que meu chaveiro da Nossa Senhora Aparecida estava no chão.

Conversei com Ela e disse: “acho que a Senhora quer ficar aqui”, então, deixei-a pendurada com um mosquetão colorido na Cruz dos Valentes e segui caminho.



Paramos no primeiro povoado, comprei mais micropore, um hidratante para o rosto e um bepantol para as assaduras.

Gastei 29,50€, muito mal com os gastos, mas paciência.

Tomamos um café no Bar do Sindicato, muito simples, mas com ótimo café e um senhor muito simpático.

Na entrada de Redencilla do Caminho, Olga e Aurélio nos esperavam para nos dar chocolate e saber se queríamos ficar no mesmo albergue e combinamos que sim, mas esqueci de pegar o nome do lugar.

Em Redencilla do Caminho tínhamos uma missão - pagar 3€ no Albergue Essencia.

Carol, minha amiga do Curso de Espanhol, ficou neste albergue.

Era por volta das 10h quando tocamos a campainha.

O hospitaleiro José nos atendeu com um sorriso largo e quando soube que estávamos ali para pagar algo que alguém esqueceu, ele achou o máximo e nos convidou para um café.


Aceitamos!

Ele ficou super feliz, mostrou o albergue e seu cachorro, Pincho, nos acompanhava de perto.

Sentados na cozinha, vi pela janela Brenda e Rodrigo, dois brasileiros que chegavam naquele momento.

Corri abrir a janela e chamei-os para tomar café conosco.

Já me sentia em casa.

José, feliz da vida, ferveu leite, preparou uma cesta com madalenas e fizemos uma linda mesa, cheia de amor e histórias.

Não demorou muito e já era hora de despedir de mais um amigo que fizemos em nosso Caminho.

Na porta do albergue, Rodrigo olhou os pequenos mosquetões coloridos em minha mochila e prontamente me perguntou: “Kelly, foi você quem deixou uma Nossa Senhora na Cruz dos Valentes?”.

Eu, arrepiada, disse que sim e perguntei como ele sabia.

Ele disse que viu que Nossa Senhora estava pendurada com o mesmo tipo de mosquetão que eu tinha.

E que quando ele viu a minha Santinha na Cruz, ela voou na mão dele.

Ele sentiu que deveria tirá-la de lá e levar para dar a algum peregrino.

Na hora perguntei: “será que ela queria voltar para mim?”.

E ele rapidamente disse que sim e colocou-a novamente em minha mochila.

Ela voltou para me acompanhar!

Histórias incríveis do Caminho.


Foi aqui que Nossa Senhora voltou para mim.

No momento dessa foto o Rodrigo percebeu que ela era minha.

Estávamos quase saindo da cidade quando José, o hospitaleiro, apareceu de bicicleta para trazer uma pomada que o Rodrigo havia deixado no Albergue.

Coisas inexplicáveis do Caminho.

Seguimos e encontramos Erin, USA.

Ele disse que ainda sentia o amor do risoto na barriga dele!

Um querido.

Seguimos vendo pessoas novas e outras que cruzávamos sempre.

Com nosso ritmo lento de hoje, seguimos a passos de tartaruga.

Conversando muito sobre nem tudo ser o que parece.

Eu crio muitos fantasmas e eles tomam um vulto inexplicável.

Hoje meu amigo aliviou meu coração com algumas palavras e foi muito legal para nós dois que caminhamos juntos nesse dia lindo e abençoado.


Quase em Belorado senti dores terríveis nas costas e bumbum por conta do tombo.

Como não sabia o nome do albergue que nossos amigos espanhóis haviam reservado, fomos para o Quatro Cantones e encontramos Andréa e Rogério.

Um albergue delicioso, bem equipado, com tomadas e luzes individuais e atendimento de primeira.


Além de uma piscina, para a qual corremos logo para nos refrescar.

Na verdade, refrescar os pés, pois a água estava muito gelada.

Ficamos juntos com o italiano Nicola e as alemãs, além de Freusi, a cachorrinha eufórica do Caminho.


Freusi, a cachorrinha alemã peregrina.

Ela fez todo o Caminho com a sua dona, a Heiki.

Gemba e eu ficamos para tomar banho enquanto o casal foi passear.

Alugamos 2 toalhas por 2 € cada, só para ter o prazer de ficarmos sequinhos de verdade.


Descansamos um pouco.

O jantar foi dentro do próprio albergue e escolhi uma sopa de alho que dizem curar tudo, tortilhas e crema de vanilla, vinho e água - tudo por 10€.

Além disso, os gastos desse dia foram12€ - albergue com café da manhã.

Um pouco antes de deitar, Nicola, o italiano, veio me falar que Tineka, a senhorinha homeopata da Nova Zelândia, estava à minha procura.

Ela queria que eu soubesse que ela estava bem e que sairia cedo na manhã seguinte, para que eu não me preocupasse.

Muito querida essa linda!

Ao ir para o alojamento, fiz a sessão desapego.

Desapeguei de um cadeado que o Gemba pegou e uma piranha de cabelo que o italiano pegou.

O arroz, sal, cebola e alho que eu carregava, já deixei para trás.

Um cataflam gel, no finalzinho, ficou com a italiana sorridente.

E foi só nesse dia.

Às 6h o burburinho aumentava e era hora de levantar para mais um dia.

Seguiríamos 24km em direção a San Juan de Ortega.

Decidimos então tomar um ótimo café da manhã no albergue.

Frutas, iogurtes, cereais, ovos, bacon, bolos e torradas, além de geleias e sucos - foi assim o nosso início de dia.

Escolhemos alguns itens, pois tudo era impossível.

Saímos do albergue às 7h30 com o estômago preparado para o dia.

Andréia e Rogério já não nos esperavam mais, pois eu e Gemba tínhamos um ritmo muito devagar para eles.

Mesmo assim combinamos de nos encontrar em San Juan de Ortega.

Amanheci bem melhor das dores no calcanhar e andei bem melhor.

Achamos um ritmo bom e seguimos nosso rumo.

Pessoas como Erin e Brenda passaram e nós continuamos no nosso passo, observando tudo o que o Caminho quer nos mostrar.

O dia estava lindo.

Paramos em um bar, o do Javier.

Ele não era de muitos amigos, mas o que vendia lá era excelente.

Um suco de laranja em uma taça linda, bocadillo de atum para levar e bananas.

Estávamos prontos para o longo trecho sem nenhum local para comer.

Gastei ali 6,50€.

Após 4h30 de caminhada paramos em um povoado para lanchar e descansar.

Uma pequena ilha no meio da rua, com grama e um banco de praça, foi o local escolhido para o break.

Estendi minha canga, deitei ao sol, estiquei as pernas na mochila e o travesseiro eram as botas.


Ali ficamos uns 30 minutos até chegar Samuel, o brasileiro que mora há 25 anos na Alemanha.

Ele hoje caminhou em um ritmo mais lento e encontramos com ele várias vezes.

Depois de muito caminhar sem ver nada, avistamos um carro parado com uma mesinha com frutas, bolo, suco de laranja e duas redes na sombra das árvores.


Paramos na mesma hora, deitei na rede e tomei um suco como se não houvesse amanhã!



Tomamos coragem e concluímos os 6km alcançando, enfim, San Juan de Ortega.

Local onde só tem uma igreja, o albergue do Monastério e um boteco.


Carimbamos nossas credenciais, paguei 7€ pela estadia e a sopa de alho era gratuita.

Percebi que minha bota Salomon estragou o cadarço.

Se arrependimento matasse, eu estava morta por não ter trazido a minha Timberland ou uma papete.

Pedi para meu esposo ligar no 0800 da Salomon, mas não obtivemos resposta.

O hospitaleiro me arrumou um cadarço qualquer, mas ainda queria minha bota arrumadinha.

Deixei a mochila na caminha, que já estava guardada pela Andréia, e fui ao boteco.

Tomei um Nesquik, comi um croissant e comprei chocolate para levar para a turma.

Gastei 6,50€.

Tomei banho e jantei a sopa de alho.

Encontrei minha amiga Tineka, que faria aniversário no dia seguinte - setenta aninhos.

No alojamento rimos muito uns com os outros por besteiras que isoladas não fazem o menor sentido e não têm a menor graça.

Mas, naquele momento, era o que tínhamos...

Vim para meu cantinho, escrevi mais um pouquinho e adormeci.

Na manhã seguinte levantamos às 5h e saímos sem tomar café.

Paramos em Agés para um cafezinho, mas o que nos esperava era um lugarzinho pitoresco e aconchegante - El Alquimista.




Tomamos aquele café da manhã com suco de laranjas fresquinhas, que na Espanha são doces e com uma cor laranja de verdade, café com leite, croissant e banana.

Gastei 6,50€.

Seguimos satisfeitos e passados alguns minutos encontramos Olga, Aurélio e Pepe - foi muita alegria.

O caminho é feito de encontros e desencontros.

E sempre deixamos o acaso cuidar de quando e se encontraremos alguém.

Isto me faz pensar na minha vida.

Quero tudo com data, hora, local, para quantas pessoas, o que levar, o que fazer, enfim, tudo certinho.

Mas o Caminho vem e nos mostra o que é a vida real e nos cabe apenas aceitar e seguir.

A partir dali os 27,5km desse trecho foram bem felizes, pois esse grupo é muito animado.

Fomos deixando Agés por um caminho de muitas pedras e uma paisagem maravilhosa, com a névoa da manhã.


Aurélio, o engenheiro espanhol, arrumou minha bota com suas super ferramentas.

Eu e Olga caminhamos falando da vida.

Pepe e Gemba falando de história e Aurélio simplesmente seguindo o Caminho, sempre alegre e sorridente.


Chegando em Atapuerca foi muito legal.

Ouvi várias pessoas falando o meu nome: “olha a Kelly”!

O italiano Nicola me chamou para avisar que o Sr. Juca - um peregrino solitário - havia perguntado por mim.

As meninas Aqualina e Hana, as canadenses, correram me abraçar.


O francesinho Arno, com seu olhar tristonho, me chamou para dizer que estava com dor de estômago.

Erin, o São Francisco, gritou de longe: EU SOU PAULISTA, MEU!!

E a minha linda Tineka, a aniversariante, ficou super feliz em me ver e já ficou à espera de meu abraço.

Tomamos um lanche e Aurélio combinou com todos os presentes para cantarmos parabéns para Tineka, que ficou super feliz e emocionada.


E encerramos por aqui mais essa parte do livro que a Kelly escreveu durante sua peregrinação pelo Caminho de Santiago.

Logo, logo a gente posta o próximo trecho que vai de Atapuerca até Bercianos del Camino.

Mas antes de ir, que tal mais uma seção de Perguntas e Respostas?

PARA KELLY

Eu: Kelly, fiquei super tensa aqui com uma coisa, pensando no caso d'eu fazer a peregrinação. Pelo visto precisa reservar todos os albergues com bastante antecedência, não é? E se dá algum tilt no meio da caminhada e você precisa fazer um percurso menor num dia e depois não consegue compensar? Tem que sair mudando todas as reservas e contando com a sorte de ter vaga?!?

Kelly: NÃO. Existem albergues municipais que são por ordem de chegada e as reservas podem ser feitas no próprio dia ou no dia anterior. Por isso é importante você ter um guia e aplicativos no celular. E ter um chip de celular para ligar para os albergues. Eu sugiro o chip da Vodafone que super funcionou!

Eu: Qual a sua definição de “peregrino”?

Kelly: Para mim peregrino é aquele que quer de alguma forma demostrar gratidão por tudo que possui. Também acho que a peregrinação é um ato de encontro com o seu verdadeiro eu e um encontro com Deus!

Eu: Num determinado dia você comentou que alugou uma toalha para se secar de verdade. Bom... já percebi que vocês não levam toalha na mochila e os albergues não oferecem gratuitamente...

Kelly: Vá, toalha de peregrino geralmente é uma fralda de nenê. Em alguns casos levam aquelas toalhas de academia de secagem rápida, mas pesam muito. Agora toalhassss de verdadeee... essas são um peso só. Os albergues oferecem cama e chuveiro. Alguns possuem cozinha, alguns oferecem café da manhã. Mas nada de muiiito além disso. Nesse dia, este albergue alugava toalhas e foi ótimo.

Eu: E para dormir? Como é? Vocês colocam o saco de dormir sobre a cama e é isso? Nada de lençol ou cobertor ou travesseiro?

Kelly: É saco de dormir sempre. Alguns oferecem lençol, a maioria tem protetor de colchão e travesseiros. Para evitar carregar um percevejo o ideal é ficar no saco de dormir e passar sempre um repelente. Mas eu não vi nenhum percevejo. Todos os albergues estão super atentos sempre, mas já houve casos...


Contato generoso da Kelly, caso você queira saber ainda mais: kellyfr@me.com.

PARA FERNANDA da Fada Madrinha Design

Eu: Fernanda, por que é que a Senhora não fez ilustração para esse post???

Fernanda: ( risos ) Porque eu estou fazendo a minha “peregrinação pessoal”. Estou “internada” numa escola em Montreal por um mês. Temos aulas de desenho de manhã, tarde e noite, todos os dias. Até dormimos na escola. É um curso intensivo com um professor fodástico (pode dizer fodástico aqui???). Estou surtando de ficar longe do meu marido e do Chaplin (meu cachorro) por tanto tempo, mas faz parte. Vou voltar mais inspirada para as próximas ilustrações agora que estou aprendendo muito sobre abnegação, foco, compartilhamento de espaço... entendo um pouquinho melhor a Kelly agora...

Alguém mais por aí peregrinando, se descobrindo, evoluindo de alguma forma?

Espero que sim, sempre!

Um grande abraço e até o próximo mês!

Buen camino!


O peregrino de Compostela

planeja sua peregrinação olhando para as luzes da Via Láctea e pensando em todos os

caminhos do mundo.

Domingos Rodrigues


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