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  • Valéria Chociai

Diga-me o que tu bebes e nada mais direi!


Você tem o hábito de participar/organizar degustações às cegas? Eu confesso que amo e, mesmo quando sou eu quem organiza, dou um jeito de me manter às cegas até o grande momento da revelação!

A verdade é que esse tipo de degustação é a cereja no bolo de todo enófilo curioso. Nela, conseguimos desafiar os nossos sentidos, a nossa memória, despir o vinho de toda informação que poderia nos influenciar... Afinal, degustar é sim um ato subjetivo.


Por outro lado, ela pode ser uma irritante pedra no sapato para os enófilos pretensiosos, ou ainda, para os inseguros. Hey, não seja um, nem outro, combinado? O vinho é muito mais que status e controle. Não é mesmo?

Hoje eu quero dividir com vocês uma dessas nossas degustações, às cegas, uma que nunca nos esqueceremos! Mas antes tenho que fazer uma pequena introdução:

Um dos ensinamentos que eu aprendi nos meus estudos de sommelière – e já comprovei na prática inúmeras vezes – é que a uva carmenère não produz vinhos equilibrados. Você concorda?

A teoria é muito clara: as janelas de colheita (falarei sobre esse assunto por aqui em outra oportunidade) não coincidem, de forma que quando o tanino estiver no seu melhor momento, por exemplo, a acidez já não estará. E vice-versa.

Pois é. Mas esses são conhecimentos relativamente recentes. A minha iniciação nesta uva ocorreu pelo menos 10 anos antes (!) e foi tão desagradável que eu me recordo até hoje de tudo o que eu senti!

Eu bebia vinho (tinto seco) há menos de um ano. Meu paladar foi educado no vinho do Porto, depois passou pelos vinhos de garrafão (quem nunca??) e espumantes. Só depois vieram os cabernets chilenos, e o meu vinho favorito foi o Santa Helena! Hehehe Sim! Confesso que ele me fez muito feliz algumas vezes! Caminho sem volta... ichi!

Mas então eu conheci o Henrique e a Lusitana de Vinhos & Azeites, com seus vinhos portugueses. No início eu desgostei: todos me pareciam ácidos, “fortes”, “secos”. Decidi então testar os chilenos sem “santa” no nome (Henrique insistia que eu deveria beber outra coisa além do Santa Helena, imagine!). Botei um carmenère na mochila e fui para uma festa! Abri o vinho. Servi. Cheirei o meu copo. Um aroma de madeira queimada invadiu minhas narinas. Não gostei. Decidi provar: não gostei mesmo! Um amargor impregnou a minha boca de tal forma que nem o gole (desesperado!) de água foi capaz de o atenuar. Ecaaaa! Parecia que eu havia lambido um tronco queimado de uma árvore. Desisti do vinho, bebi Skol.


Eu, Henrique Cachão e Vitor Lotufo, numa das degustações da Lusitana de Vinhos & Azeites no Matterello Pau de Macarrão. Foto da Revista Adega.

Garrafa vai, garrafa vem, meu paladar moldou-se pouco a pouco, nesta fase eu estava descobrindo os vinhos europeus e os apreciando! Então decidi tentar outro carmenère. Quem sabe um mais sofisticado? Com estágio em barrica?

A versão “Reserva” escolhida também se revelou uma grande decepção. O amargor era algo muito presente e me cheirava a defeito. Parei de comprar e de recomendar carmenère. Fechei uma porta.

Depois vieram os meus estudos na ABS (Associação Brasileira de Sommeliers) São Paulo, aqueles que só reforçaram a minha visão negativa. Sabe o que eu fiz nessa fase? Joguei as chaves (daquela porta!) fora. Xô carmenère!

E eu difundi essa visão, largamente, durante todos os cursos e palestras que ministrei ao longo desses, 10 anos?

Todo ex-aluno e aluno meu sabe que eu não gosto de carmenère. E sabe que eu digo isso em alto e bom som. Engraçado é que, no geral, essa minha afirmação é de grande surpresa.

Como assim os vinhos de carmenère são ruins e desequilibrados?

Eu já tomei bons carmenères!

Será?

Confesso que era mais fácil me convencer que existe E.T. em Varginha do que carmenère equilibrado! Hehehehe Será que eu estava bebendo muito do “Santa Ignorância” e nem sabia?

E não é que eu, decidida a exemplificar o meu testemunho para a minha Confraria Predileta de Todos os Tempos (hey! Vocês mesmos!), escondi um carmenère no meio de uma degustação, às cegas, da uva cabernet sauvignon. :-)

Resultado? Claro que eu quebrei a cara. Não só o carmenère (que custava 28% do valor dos demais!!) ficou em segundo lugar no quadro geral, como também ficou em primeiríssimo lugar na minha classificação. Ichiiiiiii!!!!

Aiaiaiaiai... já contei que sou eu quem abre as sacolinhas das garrafas? Pois é... imaginem a minha cara! Hehehehe Meu amigo Aurélio iria adorar ter participado deste evento. Ele é o rei das degustações às cegas, né Aurélio?


Nosso primeiro colocado!


E nosso carmenère delícia, ambos da importadora Decanter.

Mas brincadeiras a parte, o que aprendemos com essa bonita lição? Carmenère é uma uva equilibrada por natureza e a Eliza e os professores da ABS são preconceituosos? Nãooooo! Hehehe Mas vamos tentar manter o maior número de portas abertas, combinado? Cada vinho é um vinho, e cada momento deste vinho é único.

Agora prometo que tentarei ser imparcial por algumas linhas e dividirei com vocês um pouco da história dessa uva tão controversa!

A carmenère é uma uva francesa, originária da região de Bordeaux. Citada nos livros desde o século XVIII, é oriunda de um cruzamento espontâneo entre a cabernet franc com uma variedade muito antiga, já não cultivada, a chamada gros cabernet. O interessante é que a gros cabernet também é descendente direta da cabernet franc.

Atualmente ela é cultivada principalmente no Chile, uma vez que os franceses abandonaram o seu plantio após a chegada da phylloxera, em 1870. Os motivos desse abandono, ao meu ver, eram muito claros: o vinho é ruim, logo, difícil de vender, logo, ninguém fez questão de replantá-la. Sim, essa sou eu sendo imparcial com maestria! Hahaha Ok, a verdade não é essa.

A escolha de não a replantar foi motivada pela sua baixa produtividade. A vinha é menos produtiva e num momento de falta de vinho e alta de preços, os vignerons queriam fazer volume.

Mas porque será que os chilenos decidiram plantá-la afinal? Acredite se quiser, mas a teoria mais aceita é que ela acabou no Chile por engano! Durante séculos, os chilenos cultivaram a carmenère misturada nos vinhedos de merlot, chamando-a de merlot chileno, devido às evidentes diferenças (a carmenère atinge um bom estado de maturação de 4 a 5 semanas depois da merlot). Foi somente em 1994 (ontem!) que o erro foi descoberto e posteriormente confirmado pelas análises de DNA.

E não é que ela virou símbolo do Chile e uma grande ferramenta de marketing? Sua história virou estória e viajou o mundo, virou argumento de venda! E as plantações de carmenère se multiplicaram nos anos seguintes à descoberta.

Esse crescimento, no entanto, não fez dela a uva tinta mais plantada no Chile. No espaço de 20 anos, a cabernet sauvignon passou de 15 para mais de 40 mil hectares de vinhas enquanto que a carmenère passou de 5 para 10 mil.

Mas sabe onde mais ela é plantada? Na China! Ela chegou por lá na mesma época que a phylloxera chegou em Bordeaux e também passou séculos sem ser corretamente identificada. Acreditava-se que a “cabernet gernischt”, nome pelo qual a carmenère ficou conhecida, era a cabernet franc, ou ainda, um ancestral dela.

Mas chega de estórias, histórias e confusões nesse post, não é mesmo? Vamos abrir um vinho? No próximo a gente continua...

Grande abraço!


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