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  • Valéria Chociai

Sobre dormir num castelo e acordar em parafuso

Atualizado: 23 de Jan de 2019

Pela nossa querida Valéria Chociai


O que é pena é que neste areal da vida,

onde cada um segue o seu caminho,

não haja nem tolerância nem humildade

para respeitar o norte que o vizinho escolheu.

Miguel Torga


Imagem da Wikimedia, com o Castelo do nosso título.

Esse texto começou assim, como quem não quer nada, com a Eliza escrevendo sobre Moscatel.

E o nosso Moscatel queridinho, custo x benefício imbatível, é de uma vinícola enooorme que eu já tive oportunidade de conhecer em sua versão mais... digamos assim... diferenciada.

Só que como eu não vivo só de vinho (poor me...), então cá estou para lhe contar mais sobre hospedar-se em Portugal, uma cidade fofurinha do centro do país e a Quinta dos Loridos.

Interessou?

Me acompanha nessa?

Porque “acompanha-me nessa?” parece bem português-luso, né não?

Então vamos lá!

Hospedando-se em Portugal

Portugal é o paraíso da hospedagem barata.

Talvez Lisboa até tenha um preço mais globalizado, mas ainda assim... Portugal é muito barato minha gente!

Pensa num país cheio de castelos... castelos falidos, em ruínas, com necessidade de restauro graças a anos não muito favoráveis política e economicamente... aí o que esse país faz?

Resolve transformar tudo o que dá em hotel!!!

Yes!!!

Você se hospeda em castelo MUITO mais barato do que você se hospeda em Ibis de Nova York!

Gostou?

Eu também!

E as vinícolas???

Várias vinícolas têm hotel ou pousada.

Precinho camarada também!!!

A diária da minha favorita está 319 reais hoje (hoteis.com)... com café da manhã incluso... e eles servem queijo da Serra da Estrela no café...

É tipo assim de tão bom!

Eu sou do tipo que adora dar uma economizada na hospedagem para poder comer MUITO bem e/ou para fazer passeios mais legais (como alugar um veleiro para chamar de meu no Douro), mas em Portugal rola a possibilidade, de repente, de dar uma esbanjada e curtir um hotel mais bacana, já que o preço é mais amigável.

Dito isso, vamos falar sobre aquela cidadezinha fofa no meio do país... ela é Óbidos... e lá é um dos lugares em que você pode dormir num castelo!

Onde fica Óbidos e o que tem para fazer lá?

Óbidos fica na região central de Portugal, a pouco menos de 2 horas de Lisboa se você estiver de carro.

Adoro a história da cidade... ela foi presente de casamento de um rei, no caso Dom Dinis, para sua esposa, Isabel... isso lá por mil duzentos e bolinha... depois ela continuou sendo usada como dote para os futuros casamentos reais.

Não é por nada não, mas eu ADORARIA ganhar uma cidade (tá... pode ser só uma vila ou uma ilha...) de presente do meu futuro marido... Pierre Hermé, anota aí no seu caderninho!

E lá vou eu perdendo o foco...

Bom, antes dos reis portugueses fazerem a festa ali, quem vivia na região eram os mouros, que já haviam expulsado os visigodos, que já haviam expulsado os romanos... ou seja... é bem antiga a origem de Óbidos... tipo... pré-história... o lugar era nada menos que a costa atlântica da Península Ibérica, afinal de contas...

Outra coisa interessante é que até o século XV Óbidos era uma cidade costeira.

A gente fica dando uma de “migué”, achando que nossas atitudes não têm grande impacto... sem compreender de verdade os feitos e efeitos da natureza... mas ver o quanto a região foi assoreada e hoje dista do mar dá uma boa ideia do poder do meio ambiente...

Bom, auto-bronca dada, eu super recomendo que se você for a Portugal reserve pelo menos meio dia para visitar Óbidos... pelo menos... e se puder, durma ali.

No Castelo, de preferência.

Sim!!!

Durma num castelo medieval DE VERDADE!!!

A Pousada Castelo de Óbidos tem, hoje, diárias a partir de 660 reais com café da manhã incluso.

São apenas 17 quartos divididos em 3 andares... não é nada over luxuoso... não se engane... nem over confortável também... mas é beeem legal.

Tudo leva a crer que foram os mouros que fortificaram a povoação no século VIII, mas o Castelo é de Dom Dinis... não bastava dar uma cidade para a esposa... tinha que vir com castelo!!!

Pausa para os suspiros...

E não... não estraguem minha vibe com pensamentos do tipo “mas e quem pagou essa conta?”... não... não hoje... porfavorzinho...

Obrigada! ;o)

Agora podemos prosseguir.

Não rolou dormir no Castelo?

Então que tal pelo menos jantar no Castelo?

Sim!

Tem um restaurante aberto ao público... mas é bom reservar!

A comida é boa, mas não é excepcional.

Os vinhos são um pouco mais caros do que deveriam... mas você está jantando num castelo... então divirta-se e aproveite a ocasião!

Eu realmente acho que vale a pena.

Não rolou dormir e nem jantar no Castelo?

Caramba... você está me dificultando a vida, hein?

Então por favor, pelo menos dê uma caminhada por sobre as muralhas.

A vista da vila e do aqueduto que se tem a partir de lá vale a escadaria que não é tão grande assim :o)

Que aqueduto?

Ah, tá.

É que em Óbidos tem um aqueduto.

O nome oficial dele é Aqueduto da Usseira, porque ligava Usseira, a fonte da água, a Óbidos.

Ele é de 1570 e tinha no total 3km... não é tão lindo quanto o de Segóvia, por exemplo, mas ainda assim é impressionante.


Imagem da Wikimedia, de um trecho do Aqueduto de Usseira.

Tá... mas estou me perdendo... vamos organizar a bagunça aqui... a ideia era falar primeiro do Castelo e do restaurante do Castelo porque isso faz parte do seu planejamento prévio da viagem... legal...

Aí digamos que você alugou um carro... o que foi meu modo de viajar pelo interior luso... logo ao chegar na cidade, você já vê o tal aqueduto... então não precisa necessariamente ir até algum lugar específico para isso...

E depois?

Depois você vai visitar a cidade murada... fofa DEMAIS!

Tem um estacionamento logo na entrada, já que carros não podem circular por ali.


Para entrar você vai passar por um portal. Esse.


E já vai começar a se deleitar com os detalhes...


Eu visitei Óbidos na primavera... chato, né?

Ah, tá... e o que tem para ver na cidade murada?

Bom... ela é pequenininha... lindinha... e você indo por uma rua e voltando por outra, praticamente vai ver tudo.




Eu recomendo que você esqueça o guia e deixe sua curiosidade te levar... mas posso ressaltar algumas coisas...

* Note o ar alentejando das casas... essa coisa de casa baixa e caiada de branco com aplicação de detalhes em uma cor forte, normalmente o azul ou o amarelo, é muito típica do Alentejo... mas estamos bem mais ao norte...



* Ande por cima das muralhas, como já citei acima...


* Entre nas igrejinhas e xerete... no mínimo você vai se encantar por uns azulejos, como os da Igreja de Santa Maria.



* Procure pela igreja-livraria. Oi? Isso mesmo. A Igreja de São Tiago foi muito danificada pelo grande terremoto que abalou Portugal em 1755. Apesar de ter sido reconstruída, ela ficou largadinha para escanteio até que o dono de uma livraria resolveu recuperar alguns espaços e dedicá-los à literatura. Ao sair dali, de bônus, você terá uma vista privilegiada da vila... o aqueduto láááááá no fundo e uma das escadarias para muralha à sua direita.


Não. Essa não é a torre da igreja-livraria.

Eu só coloquei essa foto aqui porque achei ela bonitinha...

Minhas fotos da livraria ficaram uma lástima :o(

* Compre. Sabe tooodos aqueles souvenirs que você simplesmente PRECISA trazer? Compre em Óbidos. É a cidade com as coisas com melhor custo x benefício que você vai encontrar na viagem... sem falar que é uma delícia comprar nas suas ruazinhas! Tem uma ceramista por quem eu me apaixonei... ela faz umas coisinhas muito gudu-gudu usando a ginja por 3 ou 4 euros.


Detalhe de uma das peças dessa ceramista.

Ginja?

Se você ficou confuso, precisamos conversar sobre ginja.

Porque Óbidos é A cidade da ginja.

Que por sua vez é uma frutinha vermelha da família das cerejas.


Ginja no pé, uma imagem do Pixabay.

Com a ginja se faz uma bebida de mesmo nome... ou também carinhosamente conhecida como ginjinha, que é tipo um licor.

Bom.

Tendo provado vááááááários, posso dizer que minha marca favorita é o Mariquinhas.


O nome e a embalagem podem não ser dos melhores, mas o gosto foi o que mais me apeteceu.

Você vai encontrar ginjinha pelo país inteiro, mas aqui é em toda portinha!

Normalmente servem num copinho de chocolate... ou não.

Eu não gosto da mistura de frutas vermelhas com chocolate, então prefiro no copitcho normal... além disso, não acho o chocolate assim de uma qualidade Lindt... então... bom... eu passo.

Ah, a ginjinha pode ser vendida com ou sem a ginja-fruta dentro da garrafa... eu, claro, prefiro com a frutinha... ela toda embebida no licor fica uma diliça!

Ah, de novo!

Sabe os pastéis de nata?

Em Óbidos tem pastel de nata com ginja.

Eu prefiro os tradicionais, mas vale provar esses também...

E falando em bebidas de Portugal, não posso deixar de perder o foco MAIS UMA VEZ (minha especialidade, né?) para saber se você já tomou Licor de Merda.

Já?

Não?

Está me achando com cara de maluca?

Sou maluca, não!

Bebida portuguesa, com certeza!

E preciso dizer que acho Licor de Merda muito saboroso!


A imagem é desse link, que inclusive ensina como fazer o licor em casa...

será que você tem os ingredientes necessários???

Na verdade é um licor de leite... mas é translúcido... tem sabor de baunilha... e é bem docinho.

E se alguém disser que é bebida de mulher eu vou aí e quebro a cara.

E por que o nome tão hummm... bizarro?

Eu conheço 2 versões para a história.

A primeira diz que estavam discutindo o nome do licor... não chegavam a um consenso... alguém soltou um “mas que merda” ou algo do tipo num momento acalorado e o nome pegou.

A segunda versão é a que acho mais provável, apesar de gostar mais da primeira: a esquerda e a direita estavam na briga pelo poder e o licor foi batizado como forma de criticar as autoridades governantes.

O fato é que eu preciso voltar a ter foco... e Licor de Merda não estava no meu script... ainda mais porque por causa dele eu perdi o meu vôo de volta para o Brasil... mas isso é outra história... e foi uma merda, para falar a verdade.

Pronto!!!

Óbidos é isso... ou tudo isso... recanto de paz e fofura, mesmo com muuuuitos turistas por todos os lados nas altas temporadas e fins de semana... afinal, eles estão certos... não vale perder Óbidos!


Sorriso de quem conseguiu esconder com a cabeça os outros turistas que queriam aparecer na minha very own selfie!

Ah, importante... tem dois eventos que acontecem na cidade que talvez possam te interessar.

Normalmente na última quinzena de março tem o Festival Internacional de Chocolate... e na última quinzena de julho o Mercado Medieval.

Se você vai viajar por perto dessas datas, recomendo conferir a programação certinha... eu não fui em nenhum dos dois eventos, mas se eu fosse eu tentaria reservar tudo beeem antes... afinal a vila é beeeeem pequena e com um grande afluxo de pessoas tudo ali deve virar um #caos!!!

E agora chega de Óbidos... vamos falar sobre o que me motivou de fato a escrever esse post... Bombarral.

Onde fica Bombarral e o que tem para fazer lá?

Bombarral fica a 15 minutinhos de carro de Óbidos... e ali fica a Quinta dos Loridos, uma das muitas quintas da Bacalhôa Vinhos de Portugal.

Em Portugal, uma quinta é uma propriedade rural... e a Bacalhôa tem muitas... nessa especificamente se produz um vinho branco da casta alvarinho e dois espumantes através do método champenoise... ou seja... o moscatel que eu e a Eliza amamos, citado no começo desse texto, não é produzido nessa Quinta... apenas por essa mesma grande empresa.

Mas não é ainda exatamente sobre a Quinta que eu quero falar... é sobre o Buddha Eden, que está localizado na Quinta...




O que é o Buddha Eden?

Para falar do Buddha Eden de Portugal preciso saber se você já ouviu falar do Vale do Bamiyan no Afeganistão...

Caso a resposta seja negativa, vou resumir.

Esse lugar fica a uns 240 km de Cabul, na Rota da Seda, uma rota de caravanas comerciais que ligava a China e a Índia... mas o mais importante é que o Vale do Bamiyan tem um valor arqueológico extremamente significativo da corrente budista Gandara.

Até o século XIX, quando a invasão islâmica chegou à região, o budismo reinava por ali... os monges viviam como eremitas em cavernas abertas nas rochas e esculpiam, pintavam afrescos...

As esculturas mais significativas eram dois gigantescos de Buda em pé, um de 38 e outro de 55 m de altura.

Só que em 2001 o Talibã mandou destruir TODAS as estátuas do Afeganistão, pois “elas são respeitadas agora e podem se tornar ídolos no futuro. Somente Alá, o Todo-Poderoso, merece ser cultuado.”

Assim, num ato bárbaro de fanatismo, em março de 2001 os Budas de Bamiyan foram derrubados com tanques e dinamite.


Essa montagem é desse link e mostra o antes e o depois da ofensiva Talibã aos Budas de Bamiyan.


Essa imagem mais ampla da rocha do Vale do Bamiyan é pós-destruição.

No “buraco” maior ficava um dos Budas.

A imagem é desse link da BBC.

Pois bem... agora você pode começar a entender o Buddha Eden da Quinta dos Loridos em Bombarral, Portugal.

Eu vou fazer um belíssimo CTRL+C e CTRL+V agora a partir do site do próprio Buddha Eden... porque eu simplesmente seria incapaz de fazer melhor... e no meio vou colocar algumas fotos para ajudar você a visualizar...

Olha só:

Aceite o nosso convite e venha visitar a Quinta dos Loridos,

onde se encontra o maior jardim oriental da Europa,

o impressionante Bacalhôa Buddha Eden.


Com cerca de 35 hectares,

o jardim foi criado em protesto contra destruição dos Budas Gigantes de Bamyan,

naquele que foi um dos maiores actos de barbárie cultural,

apagando da memória obras-primas do período tardio da Arte de Gandhara.

Entre budas,

pagodes,

estátuas de terracota e várias esculturas cuidadosamente colocadas entre a vegetação,

estima-se que foram usadas mais de 6 mil toneladas de mármore e granito

para edificar esta obra monumental.







A escadaria central é o ponto focal do jardim,

onde os Buddha dourados dão calmamente as boas-vindas aos visitantes.



No lago central é possível observar os peixes KOI,

e dragões esculpidos que se erguem da água.

Terá ainda a oportunidade de observar os 700 soldados de terracota pintados à mão,

cada um deles único,

encontrando-se alguns enterrados,

tal como há 2.200 anos.





Minha parte favorita do Eden...



O jardim de Escultura Moderna e Contemporânea proporciona um espaço tranquilo na natureza para apreciar arte moderna.

Peças selecionadas da Coleção Berardo,

como por exemplo de Joana Vasconcelos,

Alexander Calder,

Fernando Botero,

Tony Cragg,

Lynn Chadwick,

Allen Jones e muitos outros,

encontram-se dispostas no jardim rodeadas de plantas diversas.


Esta galeria em espaço aberto possui obras que são regularmente substituídas,

proporcionando ao visitante experiências novas e interessantes,

em cada visita.

O jardim de arte de Esculturas Africanas é dedicado ao povo Shona do Zimbabué,

que há mais de mil anos esculpe pedra à mão transformando-a em obras de arte.

O povo Shona acredita em espíritos ancestrais conhecidos como "Vadzimu".


Imagem da própria Bacalhôa.

As suas esculturas demonstram a união entre estes dois mundos, o físico e o espiritual.

Estes incríveis escultores de pedra mantêm a crença de que cada pedra tem um espírito vivo,

que influencia aquilo em que ela se virá a tornar.

O trabalho do artista é "libertar o espírito da pedra".

Existem mais de 200 esculturas dispostas sob a sombra de 1000 palmeiras.

Venha conhecer um lugar único de paz e tranquilidade que o vai surpreender.

Ainda não entendeu o que é o Buddha Eden?

Então vou... hummm... resumir...

É o projeto mais louco, ambicioso e fora de lugar que eu já vi na minha vida!

Não é fora de propósito, não... mas fora de lugar, sim... essa é a parte do título em que o cérebro entrou em parafuso!

Ele “deu um tilt” ao encontrar o oriente tão estilizado no meio de Portugal rural, ao lado de vinhas clássicas e talz... você passa sua noite dormindo num Castelo medieval e acorda no... sei lá... nem sei onde!!!

É tipo “de Portugal ao Afeganistão por um ingresso de menos de 5 euros” – slogan bom!

Mano... muito louco o bagulho!

E vale a pena?

Ah, eu acho que vale sim... pode ser bizarro, mas não é de um jeito ruim... pode não ser lindo de morrer, mas é um grito do ser pacífico... você me entende?

https://www.youtube.com/watch?v=rtUC6KhJjGg

Peço a Paz

Peço a paz e o silêncio A paz dos frutos e a música de suas sementes abertas ao vento Peço a paz e meus pulsos traçam na chuva um rosto e um pão Peço a paz silenciosamente a paz a madrugada em cada ovo aberto aos passos leves da morte A paz peço a paz apenas o repouso da luta no barro das mãos uma língua sensível ao sabor do vinho a paz clara a paz quotidiana dos actos que nos cobrem de lama e sol Peço a paz e o silêncio Casimiro de Brito, in "Jardins de Guerra"


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