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  • Valéria Chociai

O melhor lugar do mundo

Atualizado: 23 de Jan de 2019

Pela nossa querida Valéria Chociai

O melhor lugar no mundo

É dentro de um abraço

Pro mais velho ou pro mais novo

Pra alguém apaixonado, alguém medroso

O melhor lugar no mundo

É dentro de um abraço

Pro solitário ou pro carente, é

Dentro de um abraço é sempre quente

Trecho da música

“Dentro de Um Abraço”

originalmente interpretada pelo Jota Quest

Desconsiderando a apresentação da pseudo-Magali que, se você não leu, pode ler aqui, eu gostaria de fazer meu primeiro post “de verdade” sobre o meu lugar favorito no mundo.

Então parti da simples pergunta: qual o melhor lugar do mundo?

As duas primeiras linhas da canção que Rogério Flausino e PJ compuseram, inspirada no texto de mesmo nome, ou seja, Dentro de Um Abraço, da maravilhosa, perspicaz e empoderada Martha Medeiros, vieram à minha cabeça: o melhor lugar do mundo é dentro de um abraço.

Eu sei. Eu deveria escrever sobre turismo e gastronomia. E vou.

Mas não posso deixar de admitir que o melhor lugar do mundo é esse, oras!

Então, tive que mudar a pergunta.

Qual o melhor lugar do mundo para receber um abraço?

Aí sim ficou mais fácil d'eu escrever um post “de viagem”.

Primeiro de tudo eu preciso dizer que percebi, ao longo das viagens que eu fiz até agora, que sou uma menina bastante cliché – descobri que sou T-O-T-A-L-M-E-N-T-E francesa (parisienne, bien sûr) e a cegonha me entregou no endereço errado.


A primeira vez que eu vi a Tour Eiffel foi desse ângulo.

Tem como não se apaixonar? Tem como não querer chamar esse lugar de casa?

Aproveitando, todas as fotos dos meus posts são minhas, a não ser quando eu avisar que não são.

Como neste caso. Essa foto é da minha madrinha. Roubei na cara de pau mesmo. Muito amor envolvido!

Paris deveria ter sido meu lar e Saint-Germain-des-Prés o meu quintal... mas em 1977 não existia GPS, Google Maps, Waze e deu no que deu... vim parar aqui... ô cegonha desnorteada!!!


Uma das saídas do metrô Saint-Germain-Des-Prés,

com a pontinha da torre da Église de mesmo nome aparecendo lá em cima.

Então, meu lugar favorito nesse mundo é esse... mas eu quero ser mais específica aqui.

Meu lugar favorito mesmo é sentada nas mesinhas da calçada do Café de la Mairie.

E tem hora certa!!!

Funciona assim: eu acordo entre 8 e 9 horas, feliz da vida por estar em Paris. Às 10 eu já estou na porta da unidade da Rue Bonaparte da “loja de doces” de Pierre Hermé.

Agora vamos parar um minuto aqui para falarmos sobre Pierre, meu grande amor platônico, caso você não saiba quem ele é. Pierre Hermé não tem nada a ver com a Hermès, grife de roupitchas que nem de longe me servem (no quadril e no bolso). O meu Hermé, o Pierre, é simplesmente um dos melhores, senão o melhor pâtissier francês.

No ofício desde os 14 aninhos, ele já se envolveu com nomes como Lenôtre, Fauchon e Ladurée durante a sua carreira. Ele tem taaaantos prêmios de melhor isso e aquilo, mas acho que nem vale a pena citar quais. Só vale a pena dizer uma coisa: depois que você provar seus macarons e seus croissants, você estará enrascado – não vai mais ser qualquer coisa que satisfará seu paladar!

E, importante (aliás, importantíssimo!!!) – se você for uma dessas pessoas abençoadas por Deus que conhece o Pierre, por favor, avisa que eu quero me casar com ele??? Convido você para ser padrinho ou madrinha, juro!


Pierre, meu grande amor platônico, em foto da Wikimedia.

Mas, voltando a ter foco.

Nós estávamos na parte em que às 10h estou na porta da loja, certo? Porque às 10h ela abre, com croissants fresquinhos esperando por mim – e mais uma horda de espertinhos que sabem que esses são simplesmente os melhores croissants do mundo (sem exagero, juro de novo!).


Croissants fresquinhos, crocantes e deliciosos. Todos meus!!!

Se você bobear, pode chegar lá e não ter mais croissants ( #meodeos, não!!! ) e, outro detalhe importante aqui: não é em toda unidade de Pierre Hermé que você encontra essas delícias... mas enfim, você conseguiu seus croissants quentinhos!

Ueba!

Você pode também comprar algumas outras coisinhas agora, ou voltar mais tarde... eu recomendo:

* Macarons: são simplesmente os melhores. Esqueça T-O-D-O-S os outros. Os da Ladurée parecem brincadeira de estagiário perto desses. Sem ofensas. Meus favoritos são: baunilha, caramelo com flor de sal e trufas brancas. Mas experimente também o de azeite e o de maracujá com chocolate, além de todos os outros pelos quais você se interessar, claro. Importante: Quando você pede uma caixa mista de macarons, os atendentes informam que não colocam junto o de trufa branca, por motivos gourmet super válidos, mas se você insistir com carinho e assumir a responsabilidade eles topam. Eu não acho nem um pouco desapropriado mandar os motivos gourmet às favas nesse caso.


A felicidade é redonda!

* Biscoitos amanteigados: para quem curte esse gênero de biscoitos, os de Pierre são tipo “heaven, I'm in heaven, and my heart beats so, that I can hardly speak...”, ou seja, o céu. Gente... como eu estou musical nesse post!!! Conhecem Cheek to Cheek? Amo a interpretação de Ella Fitzgerald & Louis Armstrong!

* Doces!!! Rola um montãozão, todos lindos, saborosos e geniais, mas eu sugiro a Tarte Infiniment. De baunilha. Você vai descobrir qual é o sabor da VERDADEIRA baunilha – esqueça tudo o que você já provou até hoje. E se a gula for muito grande, peça uma Tarte Infiniment de cada... eu vou amar você se fizer isso... por favor poste no Instagram com a #fouetefui para me deixar roxa de inveja! Aliás, tem Instagram? Vem me visitar: @fouetefui!


Uma das muitas Tarte Infiniment Vanille que estão orgulhosamente armazenadas no meu quadril...

* Chocolates: eu tenho a mais profunda certeza de que ainda vou escrever um post só sobre o assunto, mas o Pierre é um dos meus 3 chocolatiers favoritos. A barra Matilda é uma composição de sabores extremamente interessante – criação dele. Vale muito a pena. Não é barato, é chocolate master-hiper-gourmet, mas vale a pena. VALE A PENA!!! Assim como todas as outras barras valem. Até minha última visita a essa unidade, eles ainda não vendiam aqui os bombons (oficialmente chamados de pralinés), uma pena... mas as barras já quebram um galho.

* Gaufre: na frente do caixa tem um “biscoito-bolacha-waffle” chamado gaufre. Tem em 3 sabores. O de baunilha é de longe meu favorito. Gente... isso é MUITO bom!


http://www.pierreherme.com

Agora que eu já estou com pelo menos três croissants clássicos nas minhas muitas sacolas Pierre Hermé... onde consumi-los?

Tchã-raaaam!!!

Aqui é que entra o Café de la Mairie.

Ao contrário de muitos cafés franceses, que torcem o nariz se você consumir coisas trazidas de fora, esse café não se importa – na verdade acho que eles têm até um acordo com mon amour Pierre, pois foi a própria loja quem me indicou o café da primeira vez...

As mesinhas na calçada estão numa área levemente arborizada, o cappuccino é servido em louça “da vovó” e é delicioso, o atendimento é correto e até cordial.


Mais uma foto roubada na cara de pau.

Dessa vez de Mammys.


Mais uma foto de Mammys: por favor, prestem atenção nos alvéolos desse croissant.

Equilibrar crocância, amanteigado e leveza com essa classe, de boa,

até hoje só conheço uma pessoa capaz de fazer... seu nome está aí na foto.


Ai... é lindo demais... olha de novo, em outro ângulo – esse é outro croissant, de outro dia...

foto ainda de Mammys... eu geralmente estou mais interessada em comer do que fotografar...

Mas você acha que é só isso que faz com que eu goste tanto desse Café?

Nã-nã-ni-nã-não.

Estamos num “café com vista”.

E a vista é para a praça onde está a Igreja de São Sulpício, ou seja, Saint-Sulpice.


Saint-Sulpice, a Igreja com duas torres diferentes.

Vamos parar mais um pouquinho aqui para falar dessa igreja, caso você não tenha nenhuma referência sobre ela. Saint-Sulpice tem, a grosso modo, um relógio solar que permite ver as variações do sol ao meio-dia durante todo o ano – é bem mais interessante que isso, mas eu não consigo explicar melhor... tipo... técnico demais para um ser humano cujo cérebro está localizado no estômago...

Ajoelhado na primeira fila de bancos,

Silas fingia rezar enquanto estudava o interior da igreja de Saint-Sulpice.

Embebida no granito do soalho brilhava uma fina tira de latão que atravessava o chão da igreja, indo-se prolongar num obelisco por onde trepava verticalmente até ao topo.

Era na sua base que a irmandade tinha escondido a Chave da Abóbada.

Trecho de

“O Código da Vinci”

Dan Brown

Pois bem, o escritor de best sellers Dan Brown citou a igreja e esse “relógio” em seu “O Código da Vinci” num momento importante da trama e transformou Saint-Sulpice num point de visitação.

Detalhe – o livro usa esse tal relógio de forma “errada e fantasiosa” e se você quer saber mais tanto sobre o obelisco-relógio-aparato-solar quanto sobre o ponto de vista equivocado do livro, recomendo visitar esse link.

Saint-Sulpice também tem duas outras coisas que acho interessantes citar: uma cripta em que apresentações de teatro são realizadas e um órgão que é tocado por artistas top do instrumento frequentemente.

Bom... minha intenção não é nem de longe cobrir todo o assunto Saint-Sulpice, mas se você achou o local interessante e quer saber mais, recomento dar uma olhada nesse post super bem feitinho do Direto de Paris e no próprio site da Igreja para saber sobre a programação na época da sua visita à cidade.

Voltando ao nosso tema principal – estávamos sentados no “café com vista” para Saint-Sulpice, que fica numa praça – praça essa que não é espetacularmente bonita, mas eu a adoro. Ela tem um “clima” que está na linha exata que divide a vida da grande metrópole com a vida do bairro. Igreja, fonte, alguns turistas, alguns moradores, algumas mães com seus bebês, algumas bicicletas para lá e para cá.


A fonte da praça.

Foto de Mammys novamente – eu continuava comendo, provavelmente...


Escultura de Etienne – em nossa visita no outono de 2014 havia uma exposição do artista na praça.

Interessante a leveza de sua obra, não?

A vida transcorrendo deliciosamente... e eu sentadinha com meu cappuccino e meu croissant, de preferência, dentro de um abraço...


Ah, Café de la Mairie, eu não posso pensar em um lugar melhor...

Esse é o meu.

E o seu?

Conta para mim!

DENTRO DE UM ABRAÇO

Rogério Flausino e PJ

O melhor lugar no mundo

É dentro de um abraço

Pro mais velho ou pro mais novo

Pra alguém apaixonado, alguém medroso

O melhor lugar no mundo

É dentro de um abraço

Pro solitário ou pro carente, é

Dentro de uma abraço é sempre quente

Tudo que a gente sofre

Num abraço se dissolve

Tudo que se espera ou sonha

Num abraço a gente encontra

No silencio que se faz

O amor diz compromisso

Baby, baby dentro de um abraço

Tudo mais já está dito

O melhor lugar no mundo, é aqui

É dentro de um abraço

Por aqui não mais se ouve o tic tac dos relógios

E se faltar a luz fica tudo ainda melhor

O rosto contra o peito, dois corpos em um amasso

Dois corações batendo juntos em descompasso

Tudo que a gente sofre

Num abraço se dissolve

Tudo que se espera ou sonha

Num abraço a gente encontra

Tudo que a gente sofre

Num abraço se dissolve

Tudo que se espera ou sonha

Num abraço se encontra

Na chegada ou na partida

Manhã de sol ou noite fria

Na tristeza ou na alegria

Tudo que a gente sofre

(Na chegada ou na partida)

Num abraço se dissolve

(Manhã de sol ou noite fria)

Tudo que se espera ou sonha

(Na tristeza ou na alegria)

Num abraço se encontra

Tudo que a gente sofre

(Na chegada ou na partida)

Num abraço se dissolve

(Manhã de sol ou noite fria)

Tudo que se espera ou sonha

(Na tristeza ou na alegria)

Num abraço se encontra


Foto da Amanda Jordan

DENTRO DE UM ABRAÇO

Trecho do livro “Feliz por Nada”, de Martha Medeiros

Retirado daqui.

Onde é que você gostaria de estar agora, nesse exato momento?

Fico pensando nos lugares paradisíacos onde já estive, e que não me custaria nada reprisar: num determinado restaurante de uma ilha grega, em diversas praias do Brasil e do mundo, na casa de bons amigos, em algum vilarejo europeu, numa estrada bela e vazia, no meio de um show espetacular, numa sala de cinema assistindo à estreia de um filme muito esperado e, principalmente, no meu quarto e na minha cama, que nenhum hotel cinco estrelas consegue superar – a intimidade da gente é irreproduzível.

Posso também listar os lugares onde não gostaria de estar: num leito de hospital, numa fila de banco, numa reunião de condomínio, presa num elevador, em meio a um trânsito congestionado, numa cadeira de dentista.

E então? Somando os prós e os contras, as boas e más opções, onde, afinal, é o melhor lugar do mundo?

Meu palpite: dentro de um abraço.

Que lugar melhor para uma criança, para um idoso, para uma mulher apaixonada, para um adolescente com medo, para um doente, para alguém solitário? Dentro de um abraço é sempre quente, é sempre seguro.

Dentro de um abraço não se ouve o tic-tac dos relógios e, se faltar luz, tanto melhor. Tudo o que você pensa e sofre, dentro de um abraço se dissolve.

Que lugar melhor para um recém-nascido, para um recém-chegado, para um recém-demitido, para um recém-contratado? Dentro de um abraço nenhuma situação é incerta, o futuro não amedronta, estacionamos confortavelmente em meio ao paraíso.

O rosto contra o peito de quem te abraça, as batidas do coração dele e as suas, o silêncio que sempre se faz durante esse envolvimento físico: nada há para se reivindicar ou agradecer, dentro de um abraço voz nenhuma se faz necessária, está tudo dito.

Que lugar no mundo é melhor para se estar? Na frente de uma lareira com um livro estupendo, em meio a um estádio lotado vendo seu time golear, num almoço em família onde todos estão se divertindo, num final de tarde à beiramar, deitado num parque olhando para o céu, na cama com a pessoa que você mais ama?

Difícil bater essa última alternativa, mas onde começa o amor, senão dentro do primeiro abraço? Alguns o consideram como algo sufocante, querem logo se desvencilhar dele. Até entendo que há momentos em que é preciso estar fora de alcance, livre de qualquer tentáculo. Esse desejo de se manter solto é legítimo, mas hoje me permita não endossar manifestações de alforria. Entrando na semana dos namorados, recomendo fazer reserva num local aconchegante e naturalmente aquecido: dentro de um abraço que te baste.

Cheers! Tim-Tim! Prosit! Salut!

Et bisous!


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